O poder político no Brasil mudou de parâmetro. A relevância já não é definida apenas por cargos, coalizões ou capacidade legislativa, mas por alcance, engajamento e recorrência digital. A política entrou definitivamente na lógica da métrica.
Dados do estudo “Top 100 Políticos Brasileiros Mais Influentes no Instagram em 2025”, da Zeeng em parceria com a MonitoraBR, indicam essa direção: 56% dos políticos mais influentes estão no espectro da direita, e o Partido Liberal concentra 42% dos nomes do ranking. Entre os dez primeiros aparecem Nikolas Ferreira, Jair Bolsonaro, Rodrigo Manga, Erika Hilton e Lula, com liderança de Nikolas Ferreira, que ultrapassa 1,5 milhão de interações médias por publicação.
Os números são relevantes, mas não são o ponto central. Agora, o ponto central é outro: o capital político deixou de ser medido prioritariamente por articulação institucional e passou a ser medido por performance numérica.
Hoje vemos mais políticos tentando se sobressair em curtidas, compartilhamentos e visualizações do que apresentando soluções estruturadas para problemas complexos. O mandato virou conteúdo. O pronunciamento virou recorte. A divergência virou produto.
A lógica algorítmica alterou os incentivos e quando os incentivos mudam, o comportamento político muda junto. Plataformas recompensam conflito, simplificação, reação imediata e antagonismo. Não recompensam nuance, construção programática ou debate técnico aprofundado. Isso não significa que propostas não existam. Significa que o sistema de visibilidade privilegia o que performa, não necessariamente o que resolve.
Historicamente, liderança política exigia construção partidária, base territorial, articulação legislativa e negociação institucional. O poder era relacional. Hoje, esse modelo não desapareceu, mas deixou de ser exclusivo. A liderança também pode ser construída com edição eficiente, narrativa emocional calibrada, constância digital e polarização estratégica. O poder deixou de ser apenas relacional e passou a ser também algorítmico.
Essa transformação altera o equilíbrio democrático. O político mais relevante já não é necessariamente o que constrói maioria legislativa, mas o que domina o fluxo de atenção. E atenção virou moeda.
A direita compreendeu mais rapidamente que o algoritmo é arena primária de disputa. Ajustou linguagem, ritmo e estética à lógica da retenção. A esquerda institucional, em grande parte, ainda opera sob lógica discursiva tradicional. O algoritmo, porém, não recompensa quem está correto — recompensa quem gera reação.
O efeito colateral é a estética da indignação permanente. Se engajamento depende de intensidade, a intensidade sobe continuamente. O debate se simplifica. Políticas complexas viram slogans. A política se personaliza. A discussão sobre desenvolvimento, reforma tributária ou desenho federativo cede espaço ao embate do dia.
O estudo ainda aponta que 75% dos influentes são homens, revelando como a lógica de confronto favorece determinados estilos comunicacionais. E 11% dos influentes não ocupam mandato, indicando uma crescente desintermediação institucional: influência já não depende apenas da estrutura formal do Estado.
O risco é claro. Quando métricas digitais passam a orientar comportamento político, a pergunta deixa de ser “qual política pública é viável?” e passa a ser “qual narrativa engaja mais?”. Essa mudança não é ideológica. É estrutural.
A direita ocupou melhor esse ambiente até aqui. Mas o problema maior não é quem domina o algoritmo. É quando o algoritmo passa a dominar a política.
Ainda tratamos redes sociais como ferramentas de campanha, quando já são infraestrutura de poder. Se não analisarmos essa transformação com profundidade do ponto de vista da comunicação e da ciência política continuaremos interpretando eleições com lentes antigas, enquanto a disputa real ocorre na engenharia da atenção.
O poder mudou de perfil. E reduzir essa mudança a uma simples modernização de linguagem é subestimar a reorganização silenciosa que está em curso na própria lógica democrática.
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