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A cada três horas, um cigarro eletrônico é apreendido pela Receita Federal em Goiás

Na rota do tráfico de drogas, Goiás também entrou na mira do contrabando de cigarros eletrônicos pela localização geográfica. Apenas neste ano (entre janeiro e fevereiro), a Receita Federal retirou de circulação um vape a cada três horas durante fiscalizações em solo goiano. 

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O valor dos 440 aparelhos apreendidos chega a R$ 18,3 mil, de acordo com levantamento do órgão. No ano passado, o número de apreensões envolvendo vapes, essências e peças chegou a 36,2 mil — média de 99 por dia. Juntos, todo o material chegou à bagatela de R$ 2,3 milhões. 

O número elevado de aparelhos fez com que Goiás ocupasse o 6º lugar no ranking nacional de Estados com a maior quantidade de cigarros eletrônicos apreendidos no ano passado. O Estado perde apenas para Paraná, Distrito Federal, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina.

Embora populares entre jovens, o cigarro eletrônico tem a venda proibida no Brasil desde 2009. Buscando burlar a lei, os criminosos, inclusive, tendem a usar as mesmas rotas usadas por narcotraficantes, de acordo com a Receita Federal.

“Goiás é corredor de passagem entre Paraguai e as regiões Norte e Nordeste do país, além de ter o seu próprio mercado consumidor. A atuação constante da Receita Federal e dos demais órgãos policiais e de fiscalização também colabora para os números das apreensões desse tipo de produto”, explica o auditor-fiscal e chefe da Seção de Repressão ao Contrabando e Descaminho (Sarep), Guilherme Renovato.

Essências de cigarro eletrônico – (Foto: reprodução/Agência Brasil Central)

As principais vias utilizadas pelos contrabandistas são BR-364, BR-153 e BR-060. No entanto, há também caminhos realizados por ônibus, caminhões e carros em rodovias estaduais, as GOs. Além da entrada pelas fronteiras terrestres, os vapes também chegam ao Brasil por meio dos portos, principalmente no Nordeste e no Porto de Santos, conhecido por ser um dos principais pontos de envio de cocaína à Europa. 

Conforme Guilherme, o comércio ilegal de vapes está em ascensão, já se aproximando de R$ 7,7 bilhões em impacto fiscal a nível nacional, de acordo com dados de 2024. No entanto, ainda está longe do mercado paralelo dos cigarros tradicionais, que ainda é maior em prejuízo total, na casa dos R$ 10,5 bilhões.

“Não existe um único perfil, o mercado ilegal é altamente fragmentado, descentralizado e multicanal. O comércio é abastecido por organizações criminosas, mas a revenda é realizada por uma ampla rede de intermediários, incluindo lojistas formais, vendedores informais e canais digitais. No topo da cadeia, quem mais importa e distribui são grupos criminosos estruturados, semelhantes aos que atuam no contrabando de cigarros tradicionais, mas com maior flexibilidade logística devido ao volume reduzido dos produtos”, reforça. 

Combate

O comércio desenfreado e a popularização dos vapes faz com que a integração entre as forças de segurança estaduais e federais seja crucial para inibir a ação criminosa. Em Goiás, as principais forças de combate ao contrabando desses produtos são a Receita Federal, Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia Militar (PM) e a Polícia Civil (PC), além da Polícia Federal (PF)

No último dia 20, inclusive, a PF apreendeu 200 aparelhos introduzidos no país de forma clandestina. Uma pessoa acabou presa em flagrante por contrabando, cuja pena pode variar entre dois a cinco anos de prisão.

“Atualmente, as principais ocorrências de apreensões de cigarros eletrônicos em Goiás são em abordagens de veículos nas rodovias e em cargas transportadoras. Estão muito associados à venda pela internet e canais digitais, o que explica as constantes apreensões desses produtos em transportadoras, as quais são usadas para o escoamento dessa carga”, afirma Guilherme.

Vapes apreendidos pela Polícia Federal – (Foto: divulgação/PF)

Riscos à saúde

O vape pode ser a porta de entrada para o tabagismo, fazendo com que a pessoa possa vir a travar uma batalha contra a dependência química da nicotina. Os dispositivos têm tecnologia simples: uma bateria permite esquentar o líquido que, em geral, é uma mistura de água, aromatizante alimentar, nicotina, propilenoglicol e glicerina vegetal.

Eles aquecem a nicotina em vez da combustão dos cigarros comuns. O pneumologista, Matheus Rabahi, conta que o eletrônico tem toxicidade maior do que a do cigarro convencional, devido a forma como é produzido o aerossol inalável, frequentemente confundido com “vapor de água”. Ele também lista:

  • Superdose de nicotina: a absorção é rápida e silenciosa, o que pode levar a quadros de taquicardia, náuseas, hipertensão, insônia, ansiedade e até convulsões;
  • Toxicidade dos flavorizantes e solventes: muitas substâncias utilizadas não têm segurança comprovada para inalação crônica — como o diacetil (ligado à bronquiolite obliterante) e o acetato de vitamina E (relacionado à EVALI);
  • Exposição contínua: diferentemente do cigarro, que é consumido em momentos pontuais, o vape pode ser usado repetidamente ao longo do dia, mantendo o cérebro em constante hiper estimulação dopaminérgica;
  • Falta de regulamentação e controle de qualidade: muitos dispositivos são importados de forma irregular ou falsificados, com rotulagem inconsistente e presença de contaminantes perigosos.
Cigarros eletrônicos são febre entre jovens – (Foto: reprodução/Agência Brasil Central)

Além disso, um vape de 2 mL com 50 mg/mL de nicotina (100 mg de nicotina total) equivale a dois a três maços de cigarro, dependendo da taxa de absorção. Ou seja, um adolescente que consome dois pods por semana pode estar inalando nicotina equivalente de quatro a seis maços de cigarro — mesmo sem nunca ter acendido um cigarro convencional.

“O cigarro tradicional contém nicotina natural do tabaco, alcatrão (resíduo da queima), monóxido de carbono, amônia e metais pesados. O vape utiliza uma solução líquida com nicotina (em sais ou forma livre, muitas vezes em concentração elevada), propilenoglicol e glicerina vegetal (formadores do aerossol), aromatizantes e flavorizantes (como diacetil, associado à bronquiolite obliterante), além de impurezas metálicas oriundas da resistência do aparelho (níquel, estanho, chumbo)”, detalha.

O cigarro eletrônico surgiu como uma promessa de ajudar pessoas que eram viciadas em cigarros a parar de fumar, mas fez com que pessoas que não tinham contato com o tabagismo começassem a consumir a substância por meio do equipamento. Já entre adolescentes e jovens, o pneumologista associa a popularidade dos vapes ao resultado de uma combinação de fatores cuidadosamente explorados pela indústria:

  • Marketing direcionado com sabores doces e atrativos (frutas, baunilha, chiclete), que aumentam a palatabilidade e mascaram o gosto amargo da nicotina;
  • Design elegante, moderno e facilmente ocultável, muitas vezes semelhante a pen drives;
  • Falsa percepção de segurança — muitos jovens acreditam que é “só vapor de água”: o aerossol do vape contém substâncias tóxicas, irritantes e potencialmente cancerígenas;
  • Facilidade de uso: sem cheiro persistente, sem necessidade de acender, e com pouca produção de resíduos, favorecendo o uso escondido em ambientes escolares.

“Há doenças pulmonares relacionadas  ao uso do vape como o EVALI (lesão pulmonar associada ao uso de produtos de vaping), bronquiolite obliterante (doença do pulmão de pipoca), pneumonite química ou lipídica, exacerbação de asma ou DPOC devido à irritação crônica das vias aéreas. Também há doenças cardiovasculares, neurológicas e psiquiatras”, concluiu. 

Imagem ilustrativa de homem fumando – (Foto: reprodução/Agência Brasil Central)

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